Eu preferia ter recebido uma quantia em dinheiro pelo obséquio de lhe carregar todos aqueles livros velhos, estranhos e pesados de seu carro até sua casa: três viagens ao todo! O que diabos eu poderia fazer com uma bomba de tempo? Não que eu acreditasse que funcionaria e não que eu acreditasse que o velho era mesmo um mago, mas essa era a sua fama no bairro e eu cresci escutando isso. Acho que fui condicionado.
O pior era a tal “bomba”. Não parecia em nada! Não como eu estava acostumado a conceber uma. Parecia, sei lá, um coração de boi defumado.
—E como faço para que ela exploda? Puxo um desses tubos que parecem artérias e jogo longe como nos filmes? Falei entrando na brincadeira e o Mago achou graça e sorriu, depois disse...
—Isso seria uma granada, você quer dizer. Mas não é tão simples assim. Primeiro você deve escrever o número 10 e o seu nome em um pedaço qualquer de papel, mas cuide para que as letras e números fiquem bem legíveis. Depois cole com seu próprio cuspe o papel na bomba. E finalmente para que ela exploda você deve dizer a frase: actio nullitatis tempus. E pronto, ela irá explodir e parar o tempo por 10 segundos.
—Hmm... Acho que o número 10 no papel se refere a quantidades de segundos, não é? Mas por que devo escrever o meu nome e por que colar com meu cuspe? Indaguei.
—Quanto ao número você está certo. Escrever seu nome no papel lhe garantirá imunidade quando o artefato explodir e o seu cuspe fará o elo com seu nome para garantir que você não seja afetado.
—Caramba! E essa frase aí que o senhor disse? Como é que é mesmo?
—Actio nullitatis tempus! É latim, significa: ação de nulidade de tempo.
—Actio nullitatis tempus! Repeti para memorizar...
Fui para casa. Jantei e depois fui jogar The Last Of Us no Play 3. Após quase uma hora de jogatina adormeci. Pela manhã peguei o “coração de boi defumado” que o velho dizia ser uma bomba e de tempo ainda por cima e coloquei na mochila. Nem sei por que fiz isso. Talvez para mostrar para alguém, vai saber. Fui para escola. No caminho, do outro lado da rua vi o Josh e gritei seu nome. Mas ele sempre com aqueles fones nos ouvidos escutando Metal Core no volume máximo. Dei de ombros e segui em frente.
Das seis aulas do dia, minha predileta é Filosofia, acho que é porque gosto de “viajar na maionese”, como minha mãe sempre fala; sou assim mesmo. Meio nerd, daqueles de colecionar quadrinhos e bonecos da DC e Marvel. O caminho de volta pra casa. O mesmo percurso de sempre elá estava o Josh há uns 8o metros a minha frente. Os fones de ouvidos enfiados nas orelhas, talvez escutando Four Letter Lie, sua banda favorita no momento. Vai acabar ficando surdo...
“Mas o que?” Ele está atravessando a avenida no sinal verde. Maluco! Droga! E aquele caminhão vindo a toda pra cima dele...
—Josh! Grito, mas ele não escuta. E o caminhão mais perto, putz. Mesmo se eu correr não vou chegar a tempo, não com essa distância. Se ao menos... Peraí. A bomba de tempo! Será mesmo verdade? Hora ideal para testar. Tiro a bomba da mochila o mais rápido que consigo, rasgo um pedaço de folha do meu surrado caderno de 20 matérias e pego uma caneta. Escrevo o algarismo 10 e o meu nome: Leonard. Cuspo atrás e colo na bomba. O caminhão ainda mais perto e ziguezagueando, o motorista deve ter bebido todas, cretino!
Eu grito, não me importando seu vou parecer um louco varrido caso não der certo...
—Actio nullitatis tempus! E jogo a bomba dramaticamente como nos filmes de guerra. Ela cai ao longe e estoura em pequenos pedaços de nojeiras gosmentas.
“Não... pode... ser... verdade!”
O tempo parou mesmo! Tudo e todos ao meu redor imóveis feitos pedras. Caramba, velho maluco! Porcaria, é só por dez segundos e já perdi dois por ficar aqui de boca aberta. Começo a correr para salvar o Josh que ficou congelado com um pé no chão e outro suspenso no ar, dando um passo interrompido. O caminhão está a dois metros dele.
7 sengundos...
Estou correndo.
6 segundos...
Correndo feito um louco.
5 segundos...
Largo minha mochila no chão.
4 segundos...
Estou na metade do caminho.
3 segundos...
Corro o mais rápido que achei que poderia correr.
2 segundos...
Só mais um pouco, quase lá.
1 segundo...
Pulo em cima do Josh com tudo e enquanto estamos voando em queda, tudo volta ao normal e o caminhão passa como um míssil. Foi por um triz.
—Caramba... Leonard? O que aconteceu? Indagou ele atordoado no chão.
—Vai cara, levanta. Vamos buscar minha mochila lá atrás que te explico. Só faz um favor para você mesmo; use com menos freqüência esses malditos fones.
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