Em
um princípio Ein Sof criou um Kli. Um recipiente. Com uma única vontade, a de
receber. E o Santo, Bendito Ele, doou sua Luz, começando assim a preenchê-lo.
Com o transcorrer daquilo que só posso aludir com uma nomenclatura temporal e
humana, mas que está muito distante absolutamente, daquilo que estamos
acostumados a conceber e perceber como medida e contagem de tempo, o Kli
começou a sentir seu Criador e conhecer sua Vontade que era diametralmente
oposta a sua, pois sendo que enquanto ele possuía o desejo de receber e para
além dele não havia sequer qualquer percepção de outra volição ele absorveu da
Luz Inefável do Santo a sua Vontade; o desejo de doar.
Agora
havia duas vontades no recipiente, dois desejos. Recepção, inerente à sua
própria essência e a doação, atributo que absorvera do Criador através da Luz
que recebia. Neste ponto, agora conhecedor da propriedade que o trouxera a
existência, ele começou a sentir o desejo de doar também. Todavia, para quem
ele poderia outorgar esta oferta se tudo o que existia para ele era o Aquilo
Infinito que o criara e a si mesmo? E o que ele poderia proporcionar a Vontade
Superior?
Destarte,
por não poder dar nada ao seu Criador ele se recusou a receber mais, mas sabia
que o propósito do Santo e de sua Luz era dar prazer a ele e sabia também que
ele fora criado somente para isso, esse era o motivo e sentido de sua
existência, receber a Luz. E sem a ela pulsando em átomos de energia cósmica
dentro de si ele cessaria de ser...
Como
o Kli poderia satisfazer sua vontade de receber sem receber? E como faria para
atender
seu desejo de ser como seu Criador em doação?
De
modo que algo novo aconteceu. Uma decisão independente da parte dele, uma
escolha o impeliu para que ele decidisse receber uma porção da Luz somente para
agradar o Santo, Bendito Seja. Logo, à medida que recebia também doava prazer a
seu Criador por escolher receber.
Logo,
o vaso, cuja única e intrínseca vontade reagia apenas sobre a influência da Luz
tem seu primeiro desejo independente. A escolha da recepção do prazer por
vontade própria e não pela Vontade do Criador, como era originalmente. E isto
agora nos permite chamá-lo de “criatura” e/ou “Criação”.
Com
efeito, a designação “criatura” se aplica aqui porque o desejo veio
verdadeiramente dele, nascendo dentro de si em decorrência da vontade de doar e
não vindo diretamente da Luz, quando esta o preenchia sem quaisquer opção e
resolução da parte dele. Isto o distinguiu. Ele pode escolher receber de seu
Criador quando antes, recebia, mas só porque O mesmo desejava.
Este
Kli é a Alma Primordial, Adam Kadmon, o primeiro ser criado pelo Santo dentro
de Si Mesmo quando Sua Suprema Vontade decidiu querer compartilhar sua Luz.
Pois antes do Kli somente o Eterno Era, pelas Eternidades de Eternidades
passadas, permanecendo O mesmo, completamente inexprimível e imutável em sua
Santa Essência, sem um princípio onde desde sempre permanece Sendo O Que É. De
modo que o desejo de compartilhar demandava uma Concepção, o Pensamento da
Criação estava entrando em execução, quando Ele, para Criar removeu uma parte
de si mesmo, contraindo sua Infinitude para os lados a fim de que um espaço
vazio viesse existir, um lugar que não estivesse saturado de sua Glória para
que sua Criação não fosse mergulhada em sua Totalidade e acabasse se anulando
em relação a Ele, Louvado Seja. Esta contração do Santo em si mesmo dá-se o
nome de Tsimtsum.
O
lugar dentro do Único Lugar que É, verdadeiramente existente e real, Ha-makom,
estava pronto. Restava agora criar para doar...
E
o Kli, a Alma Original, como já mencionado, foi o primeiro ente a ser criado
que por não se conter quebrou-se e o resultado foi a Criação de tudo quanto
existe.
Continua...
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