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A cabana do velho Kendel


A provação estava no fim.

A terceira noite se aproximava enquanto o sol relutante se escondia. Sob a pujança total do negror após sua ausência, eu o aguardei.

Nas duas noites anteriores que passei naquela cabana, ele esteve lá...

Na primeira ele apenas ficou a rodear a mesma em círculos assimétricos. Na segunda, além de rodear e espreitar ele uivou para a lua que estava em sua forma plena.

Todavia, naquela noite, eu estava pronto.

A terceira noite do terceiro dia de lua cheia.

Pobre lobo! Mal sabia que eu haveria de capturá-lo para aprisionar o espírito maligno que o subjugava. E além mais, iria conjurá-lo a falar por que viera “uivar” para mim...

[Esse tal de Kendel era mesmo um velho louco. Veja só, construir aquela cabana no meio do nada. Dizem que é apenas uma cabana de caça, mas ele passava mais tempo nela do que em sua própria casa...]

Após muito considerar concernente as coisas da terra e do céu, constatei que era noite e devo ter pensado algo como...

“A noite já vai escura.”

E...

“Bom... Ele logo estará aqui...”

Assim, lá pelas 10 horas e pouco, o continuum ao derredor da cabana se reduziu a um silencio atípico para uma mata tão rica em fauna.

Eu sabia! Ele havia chegado...

O lobo possesso uivou enfim. E com um dos três mecanismos de captura que o próprio velho usava no derredor da cabana, eu o apanhei. Amarrei-o e o trouxe para dentro. Era um belo animal.

---Então, já tentou falar através da boca de um animal? Perguntei, mas não houve resposta. Resolvi mexer com seu orgulho...

---Ora, vamos lá! Sei que consegue. Pode se servir da capacidade que o animal tem de emitir sons e construir uma frase. Não sairá perfeita, mas acho que poderei entendê-la; ademais, se o seu mestre conseguiu fazer uma serpente falar, você também pode fazer o mesmo com este lobo...

---Você sabe mesmo jogar, hein... Mas quantos trunfos ainda tem? Disse o espírito maligno com a boca do animal.

---Nenhum. Apenas sigo a progressão do jogo...

---E espera ganhar?

---Já ganhei, pois estou do lado que Quem sempre vence.

---Báh!

---Mas diga-me, pelo Nome, por que estava a me rodear?

---Sou um espírito que erra pela floresta, por que aqui bem como o deserto é um lugar muito melhor do que o abismo... Além do velho Kendel, que consegui deixar louco, você é o ultimo humano que vejo por aqui depois de um longo tempo. Só queria brincar com você, assustá-lo e me divertir um pouco. O que foi um erro, pois só agora vejo a marca do Nome em você.

---De fato... O velho Kendel ficou louco mesmo. Sempre acharam que esta cabana tinha algo a ver. Quanto a mim, vim aqui apenas para me isolar um pouco da cidade, ter contato com o verde, organizar a cabeça longe do frenesi da sociedade urbana e buscar ao meu Deus. Agora, pelo Nome que está acima de todos os nomes, deixa esse pobre animal e segue seu rumo seja ele qual for...

A entidade deixou o animal e ele, pelo que parecia desenvolveu uma empatia comigo e permaneceu ao meu lado até que deixei o lugar dois dias depois...

De quando em vez, ainda vou à cabana do velho para meditar e quando estou lá o lobo sempre aparece para me ver...

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