Peguei a tela 22/27 em branco que havia comprado dias antes.
Meus três pincéis preferidos. Três bisnagas de tinta a base de óleo nas cores
preto, branco e magenta. O branco era mais usado e decorrente isso o tubo estava
quase no fim. Não uso cavalete para apoiar a tela, pinto sentado com a mesma
sobre as pernas ou de pé recostando-a em alguma coisa, tanto faz, onde for mais
cômodo. Fui preparar a tinta...
Um pouco de branco, um pouco de preto, mistura e zás: lá estava
o cinza. Fiz três tons de cinza. Um claro, um intermediário e um mais escuro. A
paleta de polietileno que tinha me permitia fazer isto em repartições
diferentes.
A memória viva de seu
rosto vislumbrado de diferentes perspectivas em minha cabeça. O pincel na mão.
Os primeiros traços. Primeiro o contorno do seu rosto. Depois olhos, nariz, boca,
cabelos; esboço pronto. Agora a cor. A primeira camada de cinza, o claro. A
segunda camada de cinza, o intermediário. E a terceira camada, a de cinza
escuro, seria aplicada depois para preencher o fundo da moldura.
Espremi o tubo de tinta magenta em dois espaços vagos na paleta
e em um deles misturei com um pouco do cinza claro para pintar o cabelo. Com magenta
pura pintei a íris dos olhos e os lábios. Cobri parcialmente o fundo com o cinza
escuro contrastando com o intermediário, minha assinatura no canto inferior esquerdo
e pronto; você estava lá, seu rosto, pelo menos. A representação mais fiel que já
pintara.
Eu não o queria, pois fiz para você [bem sabe] e até ficou
com ele durante algum tempo, mas depois trouxe de volta e nem lembro mais o que
disse; só sei que estávamos terminando pela centésima vez...
Já faz quase 10 anos que pintei seu quadro. Olho para ele
todos os dias. Ainda está lá na parede. Um dia tomo coragem para jogá-lo
fora...
P.S. [13/11/14]
Finalmente consegui! Joguei-o fora. E me senti bem ao fazê-lo...